terça-feira, 7 de janeiro de 2020

TEMPOS DE CRIANÇA

Meus Queridos Amigos,
Muito bom dia!
Bom dia!
Uma terça-feira cheia de alegrias, muita felicidade e tudo de bom.
Hoje, é um dia de ficar depois do almoço a "pensar" ... pensar que a vida de reformado em tempo de frio pouco mais dá a não ser para isso... se bem que por várias razões hoje é um dia de tristeza ...

Deveria escolher o dia para “avozar”, mas o frio, o convite a constipações ou resfriados é prudente eu ficar a “giboiar” em pensamentos soltos e com lareira acesa, boa música, um bom vinho de reserva e ir embarcando no cochilo ao sabor de sonhos rascunhados e ir acarinhando o motivo da tristeza.

Passar o dia, tempo com os netos é um traço marcante nas nossas idades e vidas.
Devia ser o suporte da sociedade... temos muito a aprender com as sociedades ocidentais ou o capitalismo desenfreado de todos os dias corrermos atrás do dinheiro levou-nos a desaprender de gostaria vida... nunca estamos acabados mas um dia acabará connosco.

Sei e entendo que é muito gratificante e enriquecedor para todos nós, as três gerações, convivermos e sentir-mo-nos. Há uma transmissão de tantas coisas que parecendo imperceptíveis se tornam perenes nos sentimentos.

O que me preocupa, melhor o que me faz pensar, porque os tempos são outros e porque as solitações são maiores, a par de uma feroz concorrência social, é o facto de as crianças, as mais pequenas, até aos 5 ou 6 anos, serem mandadas ou colocadas nas escolas, infantários ou berçários... Desligadas de tudo, dos laços familiares, a referência passa a ser a “ama”, a educadora e nunca casa, a rua, os vizinhos ou familiares... um processo de socialização que atrofia o pensamento e a liberdade.

Outrora, os laços geracionais tinham muito mais peso.
Hoje a preferência é a socialização de massas sem outro significado que não seja a competição de quem é melhor, mesmo não se sabendo de ou do quê.

A mim, esperar-me-á um lar de especialistas em geriatria...
Ou, se os milhões me baterem à porta, tenho isso combinado com a minha querida Amiga Graciete e inventarei uma aldeia para as amigas e amigos morrermos com os laços que nasceram nas nossas ruas, escolas, bairros ou cidades e nós o que nos ensinaram a fazer em crianças e com o tempo de velhos os desfazeríamos... num grande “Jango” ou caramanchão onde nos encontraríamos para pormos a conversa em dia... é um sonho! Já se faz... não me deu a gana... mas há muito que penso nisso... era uma forma de nos despedirmos uns dos outros com honras e alegrias... era como se estivéssemos num cais à espera da viagem ... a última!

A vida "moderna" empurra-nos para "armazéns", seja em criança seja em "velho". Revolta-me e faz-me sentir o tal número da segurança social ou da CGA... para usar o vernáculo, sinto-me como merda espalhada num campo...

Assim,
Tenho dado comigo a pensar que é um processo de socialização que prejudica o crescimento do ser humano como pessoa livre e com espontânea vontade própria, coarctando o pensamento criativo.

Os últimos casos, tristes e preocupantes, que as televisões nos têm massacrado a todas as horas de todos os dias, da violência de jovens de 14 ou pouco mais de 15 anos, serve de apoio ao que penso sobre este novo tipo de socialização das crianças e dos jovens... a competição que cega e coloca os valores éticos por baixo do tapete e são pisados com desdém!

Há uns meses eram os “coletes amarelos”,  ontem os chinocas, os refugiados e todos a agredirem-se gratuitamente, no dia anterior um míssil na cabeça de um general do Irão sem saber que os deuses nada controlam nos céus, um jovem cabo-verdiano morto à paulada e feita em saco de treino, um jovem morto por gaiatos junto à universidade ...casais em que um mata e logo se suicida... a inexplicável onda de violência doméstica...
Tudo louco...

Há causas de fácil identificação, há processos e modos de se mudar os efeitos, todavia falta a vontade, a vontade de pais, educadores e professores, de políticos e políticas para punirem o mal que se pratica para que no futuro não enchamos as cadeias de gente que fomos nós que os ensinamos a serem adultos sem regras.

Poderei estar errado? Poderei... porque já não tenho tempo de comprovar.

No entanto, o que melhor elas, as crianças, aprendem nesses infantários, se chamarmos a isso aprendizagem, é o ficarem sentadas, caladas ou na calma que lhes for imposta e para remate do aprendizado é o cumprimento de tudo que é ordem, obrigando com isso o atrofiar do pensamento, hábitos à mordaça nas palavras e estrangulamento da rebeldia para concluir que é nesses lugares que se aprende a não ter ideias próprias.

É um processo onde desaguam as vontades das educadoras e não as nascentes dos pensamentos das crianças, é como estivéssemos na inversão dos caminhos para o crescimento como ser humano.

Verificámos que posteriormente, no isolamento, na solidão crescem elementos psicológicos que não tiveram tempo de se libertarem porque não se auto-motivaram, nem sentiram os limites do Bem e do Mal.
Ficam a um passo da libertação da violência que cresce neles para, pela agressão e força, dominarem os semelhantes, quando não experimentam forçar os adultos às vontades deles.

Começou a ser preocupação agora... mas há muito que sempre me senti preocupado com o caminho oferecido às crianças e aos jovens. Tudo em nome de um progresso, foi e é um progresso material que atrofia o pensamento... salvam-se as excepções é isso é que marca a diferença.

Na minha modesta opinião, não acho bom, não acho saudável e só acho que se é assim, é por necessidades dos adultos e não das crianças.

Nao sei se terei ou não razão, se calhar penso assim porque nunca estive em infantários, em berçários ou em coisas do género quando fui criança.

Tive a grande felicidade, a sorte, as circunstâncias da vida de ser uma criança de verdade onde não sentia o degradar do meu tempo como criança que era ou que verdadeiramente fui.

A rua, o pátio, a praia, a cidade eram os meus cenários para eu inventar as peças da minha vida, onde nunca faltaram os directores e encenadores das cenas do meu teatro...
Ah?! Nem faltavam as coristas...

Talvez, por isso, os sintomas de liberdade, de rebeldia ou de ideias não me faltam, porém, com o sentido de respeito, do bom senso e com as regras de um bom viver.

Outros tempos...
Abreijos

””.
I - A criança que fui chora na estrada.
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.
E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.
Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.
Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.””

22-9-1933
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa.

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